A desresponsabilização da culpa

 

Nesses tempos em que o sofrimento psíquico parece ser algo abominável e que é preciso, a qualquer preço, extirpá-lo de nossas vidas, a ideia de viver sem implicações parece ser mais do que atraente. A vida hipermoderna nos oferece a oportunidade da ascensão, mas cobra, em troca, renúncias e repressões. Renunciamos desejos para cumprir protocolos sociais, reprimimos paixões para viver amores artificiais etc.

 

E tudo isso se dá dentro uma realidade em que o “fora de mim”, ou seja, a realidade e suas opções de prazer, precisa fazer mais sentido do que o dentro de mim. A tendência, cada vez mais progressiva e sombria, é do nosso “dentro” se constituir  de um vazio crônico, espaço oco e sem representação.

 

A vida exige sempre um movimento de dentro e de fora. Formamos um sistema psíquico aberto de trocas com o mundo e, ao mesmo tempo, permutamos com ele nossos desejos. Há sempre rotas e direções em mão dupla. Entretanto, quando fechamos esse sistema, o mundo acaba se tornando o fiel depositário de tudo aquilo que nos intoxica por dentro. Assim, projetamos aquelas partes insuportáveis de dentro de nós no mundo, como uma válvula de escape para um alívio necessário.

 

A desresponsabilização da culpa, por exemplo, é uma das manobras mais comuns, principalmente porque é por meio da culpa que nos implicamos a pergunta mais significativa em relação ao sofrimento: seríamos nós, e tão somente nós, os responsáveis por nosso sofrer? E seria a dor o resultado de péssimas escolhas que fizemos? Estaríamos a sós com essas escolhas? Sem cúmplices?

 

É precisamente essa dimensão de vazio e de solidão que faz com que a culpa seja um sentimento tão insuportável a ponto de passarmos a atribuir ao outro, ou a vários outros que nos circundam, parte, ou grande parte, dessa responsabilidade. É uma isenção, certas vezes, calculada pelo sujeito, noutras, desesperadamente projetada.

 

Enfim, o que verdadeiramente importa é que esse tipo de comportamento tem se tornado muito comum nos dias de hoje e que, infelizmente, tende a se tornar cada vez mais um recurso para aqueles que não suportam o encontro com sua própria verdade.

 

Prof. Dr. Rodrigo Otávio Fonseca

Psicólogo/Psicanalista - Ciclos Espaço Terapêutico

 

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