Seu Eu de 2020 depende apenas de você?

 

Você teve a curiosidade de ver o ranking do Google com as perguntas mais feitas em 2019 ao "oráculo da modernidade", também chamado de "Papai Google", aquele que sabe tudo?

 

Entre as perguntas iniciadas com "como fazer", as três primeiras foram; "Como fazer inscrição para o Enem 2019?", "Como fazer ovo de páscoa caseiro?", "Como fazer que as pessoas gostem de mim?". A terceira questão te surpreendeu?

 

As perguntas que se seguiram na lista foram: "Como fazer ovo de colher?", "Como fazer figurinhas no WhatsApp?", "Como fazer uma redação do Enem?"... Nada demais. Contudo, a terceira indagação não deixa de incomodar quem também ouve a tal pergunta no consultório.

 

Numa época em que tanto se fala de empatia, percebemos a dificuldade dos indivíduos em exercerem a empatia, em se colocarem no lugar dos outros para tentarem compreender o que as outras pessoas sentem. Em vez disso, vemos um turbilhão de postagens nas redes sociais com imagens e frases que enaltecem a empatia, o amor ao próximo e a solidariedade. Mensagens que parecem só ter valor ali porque, nos noticiários, vemos registros do contrário.

 

E não é apenas na internet que as pessoas buscam receitas para solucionarem problemas complexos. Viraram uma febre os livros e as empresas que prometem receitas para as pessoas se tornarem milionárias em um ano, para emagrecerem 20kg em uma semana e sem sacrifício, sem contar as receitas para serem felizes!

 

Mas será que se, por acaso, uma dessas receitas milagrosas deu certo para alguém serve para qualquer outra pessoa, independentemente de quem seja, onde viva etc.? Não consigo responder sem me recordar de alguns pensadores como Bakhtin. Ele tratava de como o outro reflete quem nós somos e de como dependemos do outro para sermos quem somos. Mas até que ponto o outro dita quem e como eu devo ser? Isso te assusta?

 

Já faz décadas que o conceito de alteridade nos foi apresentado pelo filósofo russo Mikhail Bakhtin. Esse conceito também se relaciona com outro apontado pelo filósofo: o nascimento social, o segundo nascimento de todos nós. 

 

O que tudo isso significa? Em relação à alteridade, somos constituídos não apenas do que herdamos geneticamente mas também somos resultado das interações que temos com outras pessoas. Assim, a constituição da nossa identidade depende do ambiente em que vivemos, dos locais que frequentamos, das conversas que temos, enfim, do que vivenciamos, aprendemos e passamos a acreditar.

 

Esse processo é contínuo e infinito, pois nos transformamos constantemente a partir das novas experiências que vivemos e da interação com as pessoas com as quais nos relacionamos.

 

E o tal nascimento social? Bakhtin o considerava indissociável do nascimento biológico, uma vez que ao nascer temos contato com a sociedade, passamos a ser submetidos a um contexto social e ideológico. Imagine um bebê nascendo neste exato momento. Agora, imagine esse mesmo bebê nascendo em diferentes países, no seio de famílias das mais variadas religiões, culturas e com as mais diferentes condições socioeconômicas, em diversos locais (num grande e conceituado hospital particular, dentro de uma casa sem energia elétrica e sem saneamento básico, na fila de atendimento de uma unidade de saúde, num campo de refugiados etc.).

 

Ficou fácil imaginar que, em cada cenário, em cada contexto, esse bebê estaria submetido a uma diferente visão de mundo? E que tal imaginar também que ele não será o mesmo até o dia em que se despedir desse mundo? As interações sociais que ele tiver ao longo da vida criarão um emaranhado de caminhos e escolhas a cada novo segundo da vida dele. Cada decisão o levará para um futuro diferente. E cada decisão, pensemos bem, não é fruto exclusivo dos desejos individuais, já que somos resultado das influências externas.

 

Você já se colocou no lugar desse bebê? E pensou como seria sua vida se você tivesse nascido do outro lado do mundo, num país em guerra, numa casa sem infraestrutura, numa família com dogmas religiosos que impedem os indivíduos de terem ou fazerem o que gostariam? E que tal se você tivesse nascido em um hospital como o Sírio-Libanês na capital paulista e, assim que recebesse alta médica você fosse levado para casa, uma mansão num bairro nobre da cidade onde vive uma tradicional família de médicos?

 

Você já imaginou tudo o que separa o você nascido do outro lado do mundo do você nascido no Sírio-Libanês? Agora, voltando à sua vida real: será que outro bebê que nasceu no mesmo dia em que você, no mesmo hospital em que você nasceu, numa família com condições culturais e socioeconômicas semelhantes às da sua família teve uma vida idêntica à sua? Nem irmãos gêmeos têm vidas 100% idênticas!

 

E voltando a falar de você, quantos fatos se sucederam desde o seu nascimento, quantas pessoas diferentes você conheceu, quantas lições você aprendeu, quantas vezes mudou sua visão de mundo? Quantas versões diferentes do seu Eu você já viveu? E que domínio você acredita realmente ter sobre seu Eu?

 

Qual é o peso do nosso consciente nisso? O que realmente está em nossas mãos? Será que é essa aparente falta de liberdade que nos faz nos esforçarmos tanto para nos enquadrarmos em padrões e sermos aceitos e bem quistos por todas as pessoas?

 

E por que temos que ser aceitos e bem quistos por todos? Somos pessoas ruins se alguém não gostar de nós? Você já pensou nisso? E já se perguntou: "quem realmente eu sou?" e/ou "quem eu quero ser e por quê?". Quem consegue dormir com esse barulho? 

 

Prof. Dr. Rodrigo Otávio Fonseca

Psicólogo/Psicanalista - Ciclos Espaço Terapêutico

 

 

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