O luto interminável em Brumadinho

 

Diante da morte, somos dilacerados pela perda de quem amamos. Algo dentro de nós se rasga e a realidade perde todo o sentido. Temos a nítida sensação de vazio e ficamos atônitos frente ao mundo que segue seu fluxo indiferente à nossa dor, ao rio que segue seu rumo sem levar em conta a destruição que involuntariamente carrega.

 

É preciso ter serenidade para dar os primeiros passos, pois enfrentar o trabalho do luto é buscar a ressignificação do outro que não retornará. Somos feitos de histórias e lembranças, recortes vivos de memória contada que precisa desse outro, de carne e ossos, presente e atuante.

 

A dor do luto evoca emoções contraditórias e ambivalentes. Do desespero e da negação da perda, podem surgir o ódio e ressentimentos por não termos mais a pessoa ao nosso lado. A ambivalência emocional tem esse objetivo: manter viva a lembrança de quem partiu e, assim, manter algo vivo no mundo vazio que nos resta.

 

Luto e Melancolia

Há mais de um século, Freud escreveu um artigo dedicado exclusivamente ao luto e que foi denominado Luto e Melancolia (1915/17), no qual Freud trata do quanto o objeto amado é radicalmente retirado da psique, esvaziando-a de sentido e empobrecendo o mundo do enlutado. É necessário tempo para que haja um trabalho de rearranjo dessas tensões, a fim de construir uma rede de sentido em torno dessa perda.

 

Portanto, o trabalho de luto visa objetivamente convencer nossa psique de que o objeto amado se foi, porém, sem sacrificar sua história. As recordações e expectativas, que antes se voltavam para nutrir o ente morto, agora servem de substrato para a reconstrução de seu legado simbólico. No luto, precisamos ritualizar a perda real para, com isso, desobstruir a dor. Os ritos são como formas simbólicas que gradativamente vão suprindo aquele espaço vazio dentro de nós.

 

A tragédia de Brumadinho é uma versão catastrófica de um luto interminável. Aquela lama tóxica sepultou centenas de pessoas e há corpos que jamais retornarão da lama para que aqueles homens e mulheres possam ter uma despedida honrada. O luto daqueles que pisam sobre a lama que enterra seus parentes dificilmente será reparado de maneira que seja possível seguir a vida sem constante sofrimento.

 

A tragédia deixa uma ferida exposta na terra onde os mortos "gritam" pela verdade e pela justiça. Como diz Mark Twain, "Só os mortos têm direito de liberdade de expressão. Só os mortos têm o direito de dizer a verdade". Isto significa que apenas eles poderiam expressar o que foi viver o drama de ser enterrado vivo por um mar de lama.

 

Aos enlutados, é necessário alertar que o luto mal elaborado, arrastado e insolúvel, pode marcar de tal forma a realidade a ponto de torná-los as próximas vítimas da tragédia. A depressão é apenas uma das consequências.

 

Prof. Dr. Rodrigo Otávio Fonseca

Psicólogo/Psicanalista

 

Foto: Bombeiros de Minas Gerais

 

 

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload

Nosso Time

De segunda a sexta-feira das 8h às 20h.

De segunda a sexta-feira:

8h às 12h  /  13h às 20h.

CICLOS Espaço Terapêutico

R. Ciomara Amaral de Paula, 30  -  Pouso Alegre  -  MG 

CICLOS 2020  -   Site criado por Hellen Morais Jornalista e Webdesigner

(35)  99992-3280

(35)    3421-0491

Home  |  Quem Somos  |  Serviços  |  Onde Estamos  |  Contato