Quanto vale a vida dos nossos jovens?

 

Lembro-me como se fosse hoje. Era a primeira segunda-feira pós-carnaval de 1992. Eu tinha 18 anos. Coloquei a mochila nas costas, acendi um cigarro e desci a pé pela rua da minha casa. Minha mãe me espreitava do alpendre enquanto eu descia confiante mas, ao mesmo tempo, aflito e ansioso. Não sabia o que viria a partir do momento em que eu entrasse no ônibus rumo a Três Corações, onde eu faria minha primeira graduação, em Odontologia.

 

Passados 26 anos, agora como professor universitário na área da Psicologia, convivo com jovens aflitos, como aquele que fui mais de duas décadas atrás, e percebo o mesmo temor no olhar de alguns alunos. Noto a ansiedade, ouço contarem das cobranças em excesso, da insegurança constante, enfim, presencio angústias no cotidiano em sala de aula. Determinados fatores são importantes nesse fenômeno.

 

Na adolescência de hoje, o lugar do desejo dos pais está sempre apontado na direção do jovem e eles esperam que o filho corresponda sempre a tal desejo. Ao mesmo tempo, os jovens são convocados ao amadurecimento precoce, o que limita o acesso ao lúdico, aos ideais próprios e à perspectiva de futuro. Ser chamado para a vida adulta antes do tempo faz com que todo o funcionamento psíquico do adolescente gire em velocidade acima daquela que seria adequada.

 

Dessa forma, a capacidades de autocrítica, a tolerância à frustração e a adaptação emocional sofrem uma espécie de curto-circuito. Como consequência, percebe-se (clinicamente) sujeitos extremamente habilidosos cognitivamente, visto que são ágeis no raciocínio e precisos na realização de suas tarefas, entretanto, são consideravelmente frágeis ao lidarem com as emoções e frustrações. Essa dinâmica crônica e rotineira ganha força no momento decisivo da escolha do curso e da instituição de ensino superior a ser frequentada.

 

A sobrecarga psíquica de ter que saber com exatidão qual será seu destino aumenta de forma a culminar em sintomas como ansiedade, pânico, depressão etc. Há também um outro ângulo a ser observado. Alguns sentimentos considerados essenciais para nossa vida, como a culpa, o arrependimento, as mágoas e os ressentimentos, sofrem uma espécie de obliteração, ou seja, são reprimidos a ponto de não ser admitido vivenciá-los.

 

Como os jovens traduzem isso? Culpar-se demonstra fraqueza, arrepender-se é sinal de uma escolha errada, magoar-se é sinal de ingenuidade ou imaturidade. Mesmo com as plataformas de redes sociais on-line ganhando cada vez mais adeptos, a presença do outro e a possibilidade de se comunicar está cada vez mais reduzida. O retraimento social em virtude de tantas exigências cria pequenos mundos privados.

 

Há jovens obsessivamente focados no estudo incansável das disciplinas e na obediência tácita às regras com a finalidade de obterem o desempenho máximo nas avaliações. Ao pensarmos sob o ponto de vista do sofrimento psíquico, os efeitos podem ser evidenciados na vida universitária, principalmente por ser o espaço em que a diversidade humana se amplia. As evidências podem ser encaradas como oportunidades de auto-questionamento e de busca por uma solução, ou de uma válvula de escape que seja.

 

O que me preocupa é o que se mantém camuflado, sem qualquer sinal. Então, quando, de repente, um professor é informado de que um aluno cheio de empatia, um dos mais participativos em aula e mais entrosados com a turma, não suportou defender-se silenciosamente de uma depressão (ou de outro problema) e escolheu partir, sem que aquilo fizesse sentido para os colegas ou para a família, o valor da vida, da conversa, do compartilhamento dos sentimentos, do acolhimento... se torna a única coisa à qual nos apegamos. Há uma saida? Sempre há. Só precisamos buscá-la dia após dia, pois ela muda sutilmente de lugar.

 

 

Prof. Dr. Rodrigo Otávio Fonseca

Psicólogo/Psicanalista - Ciclos Espaço Terapêutico

 

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