A culpa e seus rastros

De certa forma, todos cometemos algum crime. Seria impossível, ontologicamente falando, aceitar o fato de que alguém é imune a algum delito humano. Sendo assim, é inescapável admitir o poder do sentimento de culpa sobre todos nós, principalmente porque ele se relaciona com outra dimensão significativa do sujeito: o desejo. Não há desejo sem culpa, assim como não há culpa sem desejo. Ambos caminham lado a lado. Por vezes, se opõem, a exemplo de quando o desejo busca realização e nega sentir culpa caso encontre alguma infelicidade no caminho.

Outras vezes, culpa e desejo se abraçam, como ocorre quando o desejo é o da culpa, uma espécie de conluio masoquista, uma idealização do sofrimento - um nó forte e, muitas vezes, difícil de ser desfeito. Quando então tudo se torna um desatino só e o sentimento de culpa se alastra, o mundo se torna cada vez mais um lugar estranho e inabitável. Esse rastro deixado pela culpa fica incansavelmente presente nos pensamentos de quem se martiriza.

Muitas vezes, o retraimento nas relações se torna inevitável e a sensação de eterno luto e fatalidade tinge a vida de cinza. Atualmente, as depressões representam o rastro mais marcante da nossa forma - ainda muito atribulada - de lidar com o sentimento de culpa. E, muitas vezes, atestamos nessa forma de lidar com a culpa a força do chicote que sangra sobre nós, deixando o sangue escorrer por meio do arrependimento, do ressentimento e de outras formas de afeto.

Contudo (e, por isso, a afirmação acerca da forma atribulada com que lidamos com a culpa), é na sua raiz que nasce o poder do desejo. Portanto, é possível, por meio dela, atravessar as contradições das escolhas, revisitar o que fizemos e o que poderemos mudar, questionar, duvidar, recomeçar, enfim, realizar algo essencial para a nossa saúde mental: a reparação.

Prof. Dr. Rodrigo Otávio Fonseca

Psicólogo/Psicanalista - Ciclos Espaço Terapêutico

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