Paradoxo do folião: o que aprendemos com o carnaval

O carnaval é o tempo (e o templo) do prazer, aquele em que as energias se esvaem e o folião atravessa a avenida mostrando a que veio. É tempo também da estética, dos corpos à mostra, do tato, do contato, da fala ao pé do ouvido, enfim, tudo pode e, ao mesmo tempo, nada pode ser desperdiçado.

 

Não há dúvida de que o tempo é o inimigo do carnaval, afinal, são apenas quatro dias (para alguns, até mais), de modo que as horas, os minutos, cada instante valem muito. Essa efusão é muito explícita nessa época e é midiaticamente reforçada. A intensidade das experiências de prazer nesse pequeno intervalo de tempo é a condição essencial para a busca frenética pela satisfação.

 

Nossa psique é assim, busca prazer e evita desprazer. É um movimento de fluxo e contrafluxo: buscamos o prazer e nos esvaziamos dos desconfortos que porventura se acumulam; captamos os prazeres, buscamos retê-los e deles sorver a satisfação.

 

Todo esse movimento inconsciente tem na busca pela satisfação seu eixo fundamental de funcionamento porque, sem o desejo, seríamos incapazes de viver. Sem almejar algum tipo de satisfação estaríamos inertes frente ao mundo.

 

É claro que toda essa engrenagem nunca funciona bem! E é preciso não funcionar bem, isso se explica de maneira muito simples, a partir do sentimento de angústia e também da sensação da falta (ou vazio) comumente vivido pelos foliões após o carnaval. Somos basicamente sujeitos da falta. Precisamos nos sentir insatisfeitos para que busquemos algo que preencha essa falta.

 

É claro que ela jamais será preenchida, mas é justamente aí que se explica a existência da angústia. Esse sentimento demarca o mais instigante paradoxo em nós: se o que buscamos (prazer, no caso) não nos preencherá, então, por que buscar? Qual o sentido de buscar algo que não “tapará” aquilo que jamais se fechará? Não faz sentido, portanto, sentir angústia! Mas como me livrar dela?

 

Penso que a solução (momentânea) dos foliões é realizar um somatório: domínio sobre o tempo, intensidade nas experiências e uma boa dose de despreocupação com as consequências. Dominar o tempo significa fazer valer o desejo no instante e no momento proposto – um ato em nome da liberdade!

 

Com isso, a intensidade se avoluma e redimensiona o desejo, demarcando na memória aquele inesquecível momento de prazer. Um ato de liberdade com intensidade suficiente e que, consequentemente, traz o prazer não pode jamais sofrer a intromissão da culpa ou do arrependimento.

 

Por isso, pensar sobre o ontem, ter a famosa a ressaca moral ou remontar as estratégias para desfazer o que já foi feito, enfim, tudo isso precisa de, certa forma, ser minimizado (salvo quando há graves conseqüências para os atos dessa liberdade temporária).

 

E como quase toda regra, essa também tem sua exceção. Desse paradoxo mirabolante, por exemplo, surgem paixões de carnaval que, com o tempo, sobem ao altar e se tornam belas histórias de amor. Mas até mesmo no amor, aquele estranho vazio e aquela sensação de angústia insistem muitas vezes em nos visitar. Ninguém está imune!

 

Prof. Dr. Rodrigo Otávio Fonseca

Psicólogo/Psicanalista - Ciclos Espaço Terapêutico

 

 

 

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