O carretel e a pipa: quão longe sua vida vai?


Basicamente, somos seres de presença: necessitamos constantemente da presença de algo ou alguém ao nosso redor. Essa definição de presença nem sempre é muito clara, mas podemos pensá-la de maneira espacial (ou geográfica) como um contorno imaginário desenhado por nós, no qual dispomos pessoas, objetos, desejos, anseios, projetos etc. A condição ou regra fundamental para esse funcionamento é a permanência desses objetos ou das pessoas ao nosso redor. Muitas vezes, a tendência obsessiva para mantê-los assim tão perto ganha tons dramáticos, justamente por ser impossível isso acontecer.

Certa vez, ao observar seu neto brincando com um carretel preso a um fio, Sigmund Freud percebeu que, ao jogá-lo, a criança expressava com certa apreensão, o som “ó...ó...ó...”. Quando puxava o fio e recuperava o carretel, expressava com satisfação o som “dá...dá...dá...”. De maneira intuitiva e genial, Freud percebeu esse movimento lúdico de seu neto como uma alusão ao termo Fort-da: Fort (do alemão: ir embora) e da (que significa retorno). Em alusão à brincadeira do Fort-da, Freud pensou a psique como um aparelho de repetições, ou seja, de idas e vindas. O principal palco dessas cenas é a realidade, tanto a interna, das fantasias, quanto a externa, das pessoas, objetos, trabalhos, casamentos, famílias etc.

Entretanto, como mencionado anteriormente, é um equívoco acreditarmos na realização desse desejo da eterna presença do outro em nossa vida. É praticamente um desafio à lógica, pois, para que o carretel opere o da (retorno) é preciso haver o fort (ir embora), ou seja, é preciso enfrentarmos, em algum momento, a ausência daquilo que sustentamos, seja porque amamos, porque nos é conveniente ou mesmo porque necessitamos controlá-lo. Desde cedo, somos expostos a essa condição.

Quando bebês, já diante das adversidades de um ambiente hostil, necessitamos do aconchego materno, de um holding (envolvimento) da mãe, capaz de nos nutrir e de nos oferecer todas a condições de suporte para o enfrentamento dos passos seguintes. Para uma psique ainda frágil, essa marca é fundamental, pois instaura um registro de que a presença de alguém como a mãe (representada por todos seus aparatos de conforto: leite, braços confortáveis, seio, colo etc.), que nos salvará em todas as ocasiões ameaçadoras.

Todavia, o esfumaçamento dessa marca se dá à medida em que a mãe, no seu dia a dia, sucede a inúmeros afastamentos, mostrando também o quanto esse bebê precisa tolerar e, principalmente, ajustar a distância entre os dois. Esse processo de ajustamento requer muitas doses de ansiedade e muito aprendizado por ambas as partes, já que é preciso reconhecer que essa dinâmica da presença e ausência do outro em nossa vida (o Fort-da) cria tensões em vários pontos, tanto emocionais (o que sentimentos em relação ao outro) quanto cognitivas (o que pensamos em relação ao outro).

Enrolado no próprio carretel

Mais aterrorizante do que a ausência do outro em nossas vidas, certamente, é sentir que estamos perdendo o controle de nós mesmos. Isso tem sido claramente manifestado discursivamente e discutido pelos profissionais da saúde mental. Dos quadros de ansiedade aos pânicos sem sentido, algo escapa ao controle do sujeito e faz com que, de repente, a sensação apavorante da morte e, principalmente, da perda de um referencial interno o desloque para fora de seu mundo. Essa condição de um sujeito sem território, sem lugar, sem chão, é uma representação clara da angústia vivida ao perceber o quanto somos impotentes diante da vida.

Quadros clínicos, como ansiedades, pânicos e fobias em geral são exemplos desse efeito que vai se acumulando em nós e que se baseia principalmente em uma forma de desejo de controle sobre a sensações de ausência (vazio). Além de sermos seres de presença, como mencionado no início deste texto, somos também seres de intolerância. Precisamos tanto da presença do outro (para não lidarmos com a ausência) quanto da intolerância (para não tolerarmos certar condições indesejáveis, já que não precisamos tolerar o que já bom, pois o que é bom faz parte da nossa vida naturalmente). Portanto, procuro controlar minha ansiedade e, como consequência, me torno intolerante a toda forma de incerteza, dúvidas, receios e riscos: perder equivale a morrer.

A rigidez e o controle, por vezes, são tão fortes que o sujeito se torna praticamente insensível a outros tipos de afetos: ao seu redor, há somente ansiedade (mãos trêmulas, sudorese, taquicardias etc.) e suas formas de angústia (“frios na barriga”, sensações sem nome etc.). Qual seria a saída mais saudável? Saber dar linha à pipa e fazer girar o carretel. Sou da época em que, para soltar pipa, era preciso saber manejar bem o desenrolar da linha. A maneira como você solta a linha e corre, a direção do vento e os pequenos toques (“totózinhos”, como dizíamos) para “provocar” o atrito necessário entre a pipa e o vento para que a pipa, finalmente, alcance uma distância maior. Era preciso ter tempo, paciência e atenção para vários detalhes como vento, clima, lugar etc.

Na arte de soltar pipa e na vida, se encurtamos demais a linha, perdemos o sentido da pipa como objeto que voa, exercemos o controle obsessivo sobre ela e ampliamos nossa intolerância a todo tipo de sofrimento. Se soltamos demais a linha, abrimos mão do retorno e ficamos à mercê do vazio, da apatia, da solidão e, nos casos mais graves, das depressões. Assim, tanto soltar pipa e quanto viver exigem ajustes numa espécie de Fort-da, ajustes estes que precisam, acima de tudo, de um constante trabalho de interesse pelo nosso próprio vazio.

Prof. Dr. Rodrigo Otávio Fonseca

Psicólogo/Psicanalista - Ciclos Espaço Terapêutico

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