(Des)encontros de fim de ano

 

 

Na infância, quando ainda não se conhece bem o significado do Natal, sempre se tem em mente o sonho de reunir todos da família. E quanto mais parentes, mais presentes! Assim, o final de dezembro feliz tem todos reunidos à mesa, servindo os pratos, conversando de maneira harmoniosa, trocando presentes e votos de boas festas, o que dá a sensação de plenitude, de felicidade eterna.

 

Os anos passam, natais e réveillons também, e o que fica, na verdade, é justamente o avesso disso tudo. Nem todos se reúnem todos os anos, os laços sociais que pareciam tão sólidos ora se mostram apertados demais ora apresentam pontas muito soltas. Uma certa decepção surge quando a realidade é confrontada com as lembranças, com o que se pensava ser a grande amostra da felicidade eterna.

 

Não é raro que essas reminiscências sirvam hoje como uma importante fonte de reflexão sobre esse período. De fato, nessa época de celebrações, nos tornamos mais sensíveis, somos potencialmente tocados pelas imagens, palavras e gestos. Os afetos são mobilizadores da nossa vida psíquica, nos movimentamos em suas direções ou nos refugiamos quando prevemos que deles virão dor e sofrimento.

 

Assim como os músculos que se estendem quando são forçados demais ou sofrem atrofia quando não são utilizados, os afetos são as funções psíquicas mais exigidas nesse período de festas. Somos convocados a praticamente todo tipo de encontro com o outro e, como se não bastasse, precisamos manter todas as cotas de afeto prontas para a boa manutenção dos laços sociais.

 

Essa condição social, que muitas vezes funciona como regra, pressupõe ao indivíduo certas abstenções de si. São criados vínculos que exigem que estejamos presentes nos brindes de fim de ano ao redor da mesa mas, de alguma forma, existe uma parte de nós que está em outro lugar, talvez curtindo a si mesma. Poderíamos chamar esse tipo de solidão de: solitude, ou seja, a escolha intencional do sujeito de estar a sós consigo mesmo, buscando aproveitar ao máximo seu estado de solidão.

 

O encontro consigo

Tal condição é muito diferente do isolamento. Se estou presente nos brindes à mesa mas, por outro lado, ao fechar meus olhos, sinto o desejo de ver um bom filme ou mais alguns capítulos da minha série favorita, há algo de autoenganoso em mim. Como bem descreve Christian Dunker no livro A Reinvenção da Intimidade (UBUeditora, 2017), o sujeito acredita que "pode" dar conta dessa conciliação: "Eu sei separar as coisas". É como se o indivíduo soubesse dar conta de um basta temporário ao desejo de estar consigo mesmo e, ao mesmo tempo, conseguisse manter o "sorriso amarelo" enquanto come o peru de Natal ou brinda a chegada do novo ano.

 

Evidentemente somos sujeitos divididos e, portanto, jamais estaremos inteiros, seja em estados de solitude ou nos encontros e celebrações. Entretanto, o ponto nodal está na posição que ocupamos em relação aos nossos afetos. É um período potencialmente sensível, mas, como mencionado anteriormente, é inescapável mergulhar fundo no significado simbólico desse mês de dezembro, quando velas, panetones e espumantes se confundem com olhares, desejos, invejas, amores, ódios, ressentimentos, perdão e esperança.

 

Quando perguntada sobre o significado do Natal, a monja zen-budista Coen Roshi destaca o quanto é urgente a reflexão sobre nosso desejo de ser melhor, de corrigir nossos erros, de mudar a maneira de pensar a realidade com cuidado e ternura. Esse momento de fim de ano é também um período em que vale mais a pena um encontro com o que somos hoje do que com as lembranças do que fomos em anos anteriores.

 

Essa mudança considerável de perspectiva nos permite, a cada ano e a cada comemoração, o encontro e o desencontro humano, uma oportunidade necessária para que o Natal e o Ano Novo sejam momentos de lembrança, de ternura e cuidado, mas também de verdadeira transformação.

 

Prof. Dr. Rodrigo Otávio Fonseca

Psicólogo/Psicanalista - Ciclos Espaço Terapêutico

 

 

 

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