A capacidade negativa: o desconhecido dentro de nós


Nem sempre somos o que pretendemos ser nas várias circunstâncias da vida. A famosa frase “sou sempre verdadeiro”, em verdade, é uma grande farsa. Mas também não somos uma grande mentira, o que, por si só, é um grande alívio! Essa forma maniqueísta de avaliar as condutas humanas está praticamente ultrapassada. Desde a fenomenologia de Hegel, que valorizou a questão da dialética da experiência, do vivido e, principalmente, do sentido do vivido, o pensamento formatado e engessado a respeito do comportamento humano saiu de moda

Quando Freud lançou os alicerces da psicanálise e seu conceito fundamental, o inconsciente, aí sim deixamos completamente de ser capazes de estar em algum tipo de comando sobre nossas ações, ou mesmo de buscar algum tipo de nomeação para elas (verdadeiras, mentirosas, íntegras etc.). “Sou onde não penso”[!], já dizia o psicanalista francês Jacques Lacan, ao inverter o cógito cartesiano e submeter o sujeito ao seu mundo interno, inconsciente, desconhecido e, muitas vezes, angustiante e sem sentido. O que Lacan nos propõe apoiado, claro, nas premissas freudianas, é que, nas várias formas que propomos para nos comunicarmos com o outro, nós não estamos, de certa forma, cientes do sentido daquilo que estamos falando. Na verdade, estamos submetidos inteiramente a ela, aos efeitos de sua intensa produção.

Contudo, mesmo não escapando de todas essas considerações, não há como negar o quão sedutor é o desejo de nos sentirmos altivos e confiantes em nossos comportamentos sociais. Isso vem sendo observado a cada rolagem dos smartphones, a cada click em selfies, em cada publicação no Instagram, Facebook ou no Snapchat, e, claro, nos comportamentos “em carne e osso” também. Nesses momentos “ao vivo e a cores”, o espetáculo é abundante. Talvez, por um efeito de ilusão de grandiosidade provocado pela virtualidade das redes sociais, os indivíduos, ao se comportarem em público, buscam se sustentar com frases de efeito, palavras de impacto, atitudes excessivamente pomposas, dentre outros performatismos estéticos e plásticos.

Capacidade Negativa

Sob a luz de Freud e Lacan, podemos pensar esse fenômeno a partir de um conceito clínico utilizado pelo psicanalista inglês Wilfred Bion denominado capacidade negativa (negative capability). Nas sessões, o analista precisa exercer sua capacidade negativa, ou seja, ser capaz de conter o desconhecido dentro de si, além de ser capaz de suportar sentimentos negativos. Quando sou capaz de suportar o desconhecido dentro de mim, percebo logo o quanto é irrelevante encontrar, nas aparências comportamentais, os contornos mais adequados de apresentação social.

Se sou capaz de suportar os sentimentos e pensamentos negativos dentro de mim, vejo, sinto e falo com mais vigor diante do outro, justamente porque reconheço como são vastas são as possibilidades de conflito e quantas soluções podem ser encontradas. A capacidade negativa é uma espécie de viga de sustentação que nos põe frente a frente com uma outra capacidade denominada por Bion de intuitiva (do latim in + tuere: “olhar para dentro”). Intuir significa, nessa perspectiva, encontrar, produzir sentidos e afetos e, juntamente com a capacidade negativa, suportar o vazio. Talvez assim possamos ser capazes de lidar com o outro e com seu insaciável desejo de supremacia sobre a própria língua.

Prof. Dr. Rodrigo Otávio Fonseca

Psicólogo/Psicanalista - Ciclos Espaço Terapêutico

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