Eros e Thanatos: uns chegam e outros partem

 

Quando chegamos em datas mais reflexivas do que festivas, como o dia de finados, é inevitável o contato com o desconforto que a dimensão da morte nos traz. Alguns diriam que a consciência da existência da morte nos humaniza, outros encontram nas religiões as formas de entendimento do que ela representa.

 

A proposta aqui é apresentar, por meio de um "brincar" com alusões (assim como as crianças fazem em análise) como a morte se funde (e, às vezes, se confunde) com a vida. São várias as estações. Ficamos esperando quando o trem da vida chega, nos recebe e nos leva para outras estações. Nessas estações, buscamos as indicações de direções, as ruas por onde passar, pessoas para encontrar, até que, enfim, chegamos ao destino desejado.

 

A vida é como estar constantemente em estações de trem. Chegamos, partimos, esperamos a hora certa para o embarque e superamos os momentos de atraso. Diferentemente do dia a dia das verdadeiras estações de trem, nas estações da vida jamais pensamos em chegar ao destino final: a morte.

 

Quem ou o quê são Eros e Thanatos?

Freud, em 1920, escreveu um belíssimo texto intitulado: Além do princípio do prazer. Nele, Freud lança dois conceitos muito interessantes, segundo os quais nós somos marcados por duas forças psíquicas poderosíssimas: Eros e Thanatos. Eros é apresentado como a pulsão de vida, traduzindo para um conceito mais claro: uma força de energia psíquica ligada à vida. Paralela à pulsão de vida, existiria a pulsão de morte, representada por Thanatos.

 

Na pulsão de vida, estaria presente toda a energia psíquica que buscamos para ligarmos as coisas do mundo, vincularmos afetos, situações, pensamentos, momentos. Assim, toda pulsão de vida busca formas de agregar aquilo que possa nos refazer em relação ao mundo. Já a pulsão de morte estaria fortemente voltada ao desligamento, à desvinculação com o mundo.

 

Para Freud, a pulsão de morte seria uma tendência inevitável de buscarmos atacar o que está vivo, a fim de voltarmos para trás até o repouso do mundo inorgânico. Parece perverso, mas vou exemplificar: a pulsão de morte existe quando exageramos em nossos hábitos corriqueiros, quando agimos impulsivamente ou mesmo quando tentamos manter o controle das situações internas, mantendo nossas cargas emocionais retidas. Exemplos não faltam.

 

Para Freud, vida e morte, Eros e Thanatos caminham lado a lado, são indissociáveis, ou seja, agem em conjunto. Enquanto fazemos ligações também efetuamos desligamentos. Diferentemente de conceitos teológicos sobre vida, morte, eternidade, entre outros, Freud nos lança direto no caldeirão das pulsões. Nos lança no jogo dinâmico e incessante no qual só conseguimos ilusoriamente acreditar que controlamos quando desenvolvemos sintomas como fobias, pânico, depressões etc.

 

Que lição tirar disso?

Nesses momentos, somos atormentados pelo medo da morte e nos refugiamos justamente nela [na morte], fazendo falsas ligações de vida. Isso porque evitamos ao máximo uma vida autêntica e, com isso, desenvolvemos sistemas cada vez mais sofisticados de autocontrole com rituais, regras, normas e as mais absurdas formas de ver o mundo com os olhos mais distantes de um verdadeiro entendimento do que representa viver e morrer. É como andar de estação em estação sem saber o verdadeiro propósito de estar lá ou, se pudermos remontar este cenário, seria como estar estático, sem conseguir mover o corpo, mas repleto de angústia, vendo ao redor pessoas chegando e partindo em um fluxo cada vez mais intenso.

 

Seria esse o verdadeiro sentido de uma morte em vida? A morte do corpo é o resultado de uma vida na qual Eros e Thanatos construíram juntos uma história naquele corpo, que um dia pensou, sentiu, agiu e transformou. Por isso, lanço a pergunta: qual é o real sentido de viver? Está diretamente ligado ao quanto de força você deseja imprimir ao desejo de se mover. 

 

Prof. Dr. Rodrigo Otávio Fonseca

Psicólogo/Psicanalista - Ciclos Espaço Terapêutico

 

 

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