A fé posta em xeque

 

Vivemos tempos difíceis. Os níveis de intolerância atingem proporções cada vez mais patológicas. Já não nos espantamos com determinados comportamentos. De Las Vegas a Janaúba, ganharam fama pessoas cujos atos nos fazem perguntar: no que elas acreditavam? Estariam descrentes na vida? Estariam sem uma referência familiar ou religiosa? Com a passagem do dia das crianças (não há como descrever como as mães de Janaúba devem estar se sentindo) e também do dia da Padroeira do Brasil, não seria nenhum absurdo questionar como anda a dimensão humana da fé e, consequentemente, de que maneira estamos construindo nossas crenças e valores, tanto morais quanto éticos.

 

Algumas décadas atrás, Sigmund Freud abalou uma sociedade arcaica e tradicionalista ao afirmar que as crianças tinham uma vida sexual. Mas Freud esclareceu que, diferentemente do que as pessoas poderiam pensar, essa sexualidade nada tinha a ver com atos espúrios ou depravados, mas sim com a capacidade de explorar suas fantasias, de manter relações de amor e ódio com seus pais, de explorar suas identificações por meio dos brinquedos etc.

 

Princípio da fé

De acordo com Freud, quanto mais a criança fosse capaz de manter os laços com o mundo e dele sorver tudo que fosse possível, mais se desenvolveria. Estaria aí um dos princípios do surgimento da fé. Como uma espécie de grão, a criança, a partir da curiosidade, exploraria o desconhecido e nele encontraria as bases do aprendizado, da alteridade, das diversas formas de cuidar (seja de si, seja do outro) e, fundamentalmente, de saber lidar com os vazios e as frustrações que a vida sempre nos impõe. Saber lidar com esse vazio, criando possibilidades de viver com esperança em um mundo melhor, é a chave para o equilíbrio das diversas formas de prática da fé.

 

Há também um outro aspecto interessante que se refere a um lado “infantil” de se conectar com a fé. Aqui, infantil diz respeito àqueles aspectos perseverantes, atemporais e, por vezes, irritantemente otimistas (aos olhos dos adultos) que as crianças são capazes de expressar quando olham para seu mundo, quando a fantasia e a realidade são somente o lugar por onde se expressam.

 

Como poderíamos resgatar nossa fé?

O que realmente nos incomoda, digo nós, adultos, é que a criança acredita (tem fé) sem criar empecilhos, sem estabelecer condições, sem habitar o mundo das incertezas. Seria o caso de resgatarmos nossos valores mais profundos como a fé, por exemplo, encontrando (ou mesmo reorganizando) a criança que um dia fomos? Seria então, revisitando nossos antigos laços infantis, que poderíamos consolidar nossas crenças enquanto adultos.

 

A crueldade da vida, o fatalismo de alguns acontecimentos (em um, tiros do alto de um hotel; em outro, um homem em chamas em uma creche ateando fogo em crianças) enfraquece e nos emudece frente ao que virá. E o futuro é o combustível da fé, e a fé, como diria Gilberto Gil, não costuma “faiá”.

 

Prof. Dr. Rodrigo Otávio Fonseca

Psicólogo/Psicanalista - Ciclos Espaço Terapêutico

 

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